quarta-feira, 24 de julho de 2013

Depois de pensar um pouco, decidi mudar o site que hospeda o blog. Talvez por causa de todas as mudanças que acontecerão depois da formatura, ou pelas que acontecem todo dia, ou simplesmente porquê prefiro o Tumblr... Enfim.

O novo link é nuvens-de-chumbo.tumblr.com. Todas as antigas postagens já estão lá. A leitura agora é diferente: passando o mouse pelo amontoado de letras coloridas, uma setinha pequena aparece no topo. É só clicar e ler. ^^

Espero que gostem.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Tranças de Carinho.

Era dia. Manhã clara, azul. Solzinho branco, brando... E o vento.  O vento frio, aquele vento que agita os cabelos, mas não faz as abas do casaco balançarem. Como se fosse uma brisa que tomou café. Andava em linha reta sobre o caminho de cimento cinza, evitando pisar nas folhas castanhas que haviam caído das árvores do parque. Caminhava agora ao lado do lago, e estava tão cedo que os patos ainda nem estavam lá, tomando banho e brincando com a água como sempre faziam. Andava com as mãos nos bolsos do jeans, com os cabelos soltos.

Chegou ao banco, e sentou. Ele estava sem relógio, mas como a luz do sol parecia aquecer um pouquinho mais do que antes, sabia que estava mais perto da hora dela chegar. Tocou numa mecha de seus próprios cabelos. Desciam até um pouco abaixo dos ombros, ondulados só-um-pouquinho, castanho-escuros. Gostava bastante deles. Só não sabia por que ela gostava tanto. E apesar disso, suspeitava saber quem aquela velhinha tão doce era.

Seu pai dizia que ela já havia falecido, mas ele sabia que eles apenas não se falavam mais. Ele não tinha coragem de perguntar para ela, mas a semelhança dos olhos dela com o seus, escuros como o céu sem nuvens da madrugada, não deixava muitas dúvidas.

Quebrou então sua linha de pensamento, ela estava chegando. Sentou-se ao lado dele no banco, e ficaram juntos vendo o lento nascer do sol e o acordar do parque. Ele virou um pouco o rosto para observá-la, e viu que seus olhos estavam fechados, como que aproveitando o levíssimo calor que o sol dava àquela hora. Continuou olhando e, como sempre, pareceu-lhe que ela inteira era enrugada. Sabia que ela devia ser bem velha, mas mesmo assim podia-se ver muito bem que quando jovem fora muito bonita. Seus cabelos eram inteiramente brancos, presos num coque pequenino na nuca. Ela cheirava sempre a lavanda e a outra coisa boa, que ele gostava de pensar que era cheiro de vó.

Então suas pálpebras levantaram e ela o olhou com aqueles olhos cheios de ternura de vó.

- Por que deixou a barba crescer?... Você é muito novo para ter barba, é só um menino... Amanhã não quero ver essa barba.

Ele assentiu e ficou feliz de ouvir a voz dela, que destoava daquela aparência frágil e que ele quase nunca ouvia.A senhora abriu os braços e ele deitou-se de lado no banco, a cabeça no seu colo de lavanda. Então os frágeis dedos dela moveram-se entre seus cabelos, como ela fazia todas as manhãs, há mais ou menos dois meses. Os dois ficaram um bom tempo assim. Formavam um quadro meio inusitado: uma senhorinha trançando e destrançando as mechas do longo cabelo daquele adolescente, uma cabeça mais alto que ela e pelo menos duas vezes mais largo: ela era muito pequena. Coisa de velhice, a gente vai diminuindo até sumir.

Até que viram que o sol já havia acabado de nascer e começado a aquecer de verdade. A luz estava mais forte, mais amarela; os patos já nadavam no lago e um casal, sonolento ainda, se alongava, provavelmente para correr. Ela tirou as mãos de seus cabelos, e ele levantou do seu colo. Ela sorriu, como sempre...

E abraçou-o pela primeira vez, seus bracinhos finos em volta da cintura dele. Ele retribuiu o gesto, meio desajeitado, mas sabendo que havia ali um sentimento sincero.

- Obrigada, querido. – e colocando a mão em seu rosto – e venha sem barba amanhã, sim?

Ele sorriu:

- Venho sim, vó.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Rotina.

Migalhas, migalhas, pedacinhos...
Confusão, cores, dores, mundo.
Vida passa, tempo passa
Felicidade, alegrias?
Do tamanho de uma uva-passa
Está meu coração...

Vida, louca vida, rotina.
Corre, corre, trabalhos.
Estudo, listas, testes, provas.
Notas. Vírgulas.
Poemas tortos; torto.

Cheguei à conclusão de que escrevo mal. Deixar as palavras sair sem coordenação é muito bom, mas fica feeeeio...

Viver a espera da ida dói.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Poema.

Meio fora de contexto/incompreensível, mas como é difícil sair um, vou postar.

Por muito pensar tu vens,
Ó, meu grande pesar
Pressiona meus ombros com força
E me sinto desabar.

Vivo assim agora:
Com o peso de ir embora
Com o peso da escolha
Com o peso do pesar...

Se eu parasse de pensar,
Talvez ele me deixasse;
Se meus amigos não amasse,
Deixaria de me preocupar...

Depois que sair daqui,
Como há de ser?
Como hei de viver assim,
Se nem sei o que fazer?...

Perdão por tanto pensar,
E tudo o que sinto expôr.
Mas pra isso é a amizade,
Que é o mais sublime amor.

Comentário da primeira pessoa que leu: "Futuro é inerente ao ser! Pare de planejar e apenas VIVA!" - A.C.M. 

Obrigada por tudo, pequena.

terça-feira, 26 de março de 2013

Ladeira.


(Meu primeiro conto. O título é esse porque meu amigo Keilon Reckers pediu, rs. Não sei quem é a mulher do conto. A alma dela contou para a minha que descia a ladeira do morro de salto, sempre; e o resto da história foi saindo pela ponta da caneta.)

Foi descendo devagar a ladeira do morro. De salto, claro, que ela não era mulher de perder a classe; por mais difíceis que fossem os tempos. Difícil trabalhar de doméstica em casa de madame, logo ela, tão acostumada a nada fazer. Não estava nem um pouco empolgada para sair e ir lavar e passar em outra casa: era só seu terceiro dia, estava chovendo torrencialmente, e aquele guarda-chuva não estava adiantando de nada.

Mas agora era diferente, seu marido se fora e as bocas dos filhos pequenos não podiam ser ignoradas. “Qualquer coisa, menos deixar meus filhos passarem fome”, pensou a orgulhosa mãe de salto na ladeira. Cabeças viravam quando ela passava. Mesmo depois de três filhos, ainda era bonita. Apenas pequenas rugas ao redor dos olhos e um ou dois fios de cabelo branco denunciavam sua idade, que ela não contava a ninguém. Fora isso; as mãos bem cuidadas, as pernas de adolescente e a barriga quase inexistente a faziam parecer bem mais nova do que era.

E acabou de descer a ladeira, e subiu os degraus do ônibus.

Não ligava que a olhassem, mas lembrou-se inevitavelmente de como o seu marido a fazia sentir protegida. Devia ter suspeitado quando ele começou a trazer mais que o dobro do que trazia antes para casa... Mas foi egoísta, só pensou no que aquele dinheiro traria para si e para seus amados marido e filhos; os homens da sua vida. Mas no fundo ela sabia. No morro é sempre assim...

Por isso, não foi realmente uma surpresa (uma péssima surpresa, diga-se de passagem) quando apareceu um moleque suado e ofegante na sua porta, na hora do almoço, dizendo afobado “vem dona, que seu Welton tá morrendo!”; e ela foi; meio fora do próprio corpo. Correu, mas não era ela. Ajoelhou-se ao lado do sangrento buraco no meio do peito que resumia seu marido, que ainda teve tempo de sorrir, “desculpa” e partir em seus braços. Mas não foi ela quem chorou, foi aquele marasmo que tomou conta dela. Desde aquele dia, parecia que era outra que movia seu corpo e sua vontade, e a mulher que ela era antes estava escondida atrás de um véu, sem vontade de sair.

Deu por si saindo do ônibus, na frente da casa da patroa. O celular tocou na hora que ela estendeu a mão para a campainha. Ela atendeu, mas aquela chuva maldita piorava tanto o sinal... “Fala, Nathasha, o que foi?” Barulho, muito barulho, e a voz chorosa e desesperada da sua melhor amiga misturada com o chiado do sinal ruim. “Ah meu Deus, ah meu...’ ‘...rível, amiga, a chuva...’ ‘...aiu o barraco...’ ‘...teus menino, ah meu Deus do céu!” mais choro, gritos longínquos, e o barulho da chuva e da torrente lamacenta, será que era só sua imaginação? Chuva maldita...

Quando seu cérebro finalmente conseguiu registrar o que a amiga havia dito, ela decidiu que não podia mais ficar ali. Atravessou a rua devagar sobre seus saltos, sem olhar para os lados, desejando apenas que o ônibus que iria leva-la para junto dos homens da sua vida não demorasse muito.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Não quero colocar um título nesse post. Escrevo nesse blog porque amo escrever, por mais que ninguém (ou quase ninguém) leia o que sai dessa minha cabeça confusa. Então esse pedido de desculpas é para mim, antes de ser para qualquer possível leitor/leitora que eu tenha.

Foi uma negligência comigo mesma deixar essas outras vidas presas tanto tempo dentro de mim. Pois cada livro que leio, cada personagem que passa pelos meus olhos vive em mim mesmo depois que eu já devolvi o livro à prateleira... Me sinto velha às vezes, com tantas vidas em mim. E ainda por cima há aqueles personagens que são meus, mas que contam suas histórias em uma voz muito baixa para que eu consiga trazê-los para ver o sol através das minhas palavras...

Este é um ano muito importante: o ano que eu vou começar a construir minha vida, fazendo o meu amado curso de jornalismo... E é também meu último ano numa escola maravilhosa que aprendi a chamar de lar, graças principalmente aos que conheci aqui. Mas mesmo com toda a loucura de ser terceiranista e vestibulanda e metamorfose ambulante (que clichê dizer isso... mas fazer o que se é verdade) eu quero escrever mais esse ano.

Escrever o que eu nunca consegui escrever. Jogar no mundo esses pedaços de história; esses personagens fugidios que batem na minha porta com seus pseudo-contos, e que sussurram suas vidas pelas minhas janelas enquanto eu presto atenção sem mostrar que o faço... Porque quando eles percebem que estou levantando para abrir a porta, fogem.

O desafio desse ano é esse: ensiná-los que, se eu por acaso abrir a porta, não vou prendê-los para sempre... Só quero saber de suas vidas, e depois deixá-los livres para que voltem quando bem desejarem, com novas histórias.

domingo, 23 de setembro de 2012

Antes de São Paulo.


Numa rua de nome engraçado, hospedada em um hotel com nome de anjo. Três dias, pelos quais esperei a vida toda, mesmo sem saber. São Paulo... Quanta coisa gravada num nome tão pequeno, tão simples. A expectativa é grande, mas o medo de me decepcionar também é. Por que será que essa cidade me parece tão fascinante? Será que é a velha estória do nordestino que vai para São Paulo sofrer?... Que preconceito o meu. Não devia pensar assim, sendo uma representante orgulhosa da minha região.
O fato é que São Paulo pra mim é uma cidade mágica. Sua luz, sua vida 24 horas por dia, seu amor. Algo na alma de São Paulo se conecta com a minha alma e me faz querer essa cidade. As cores, as vozes, os sons. A música, a história, os gostos, tudo. Sinto-me São Paulo. Sempre me dizem que tenho cara de São Paulo. O sotaque, porém, mistura de cearense com todo o resto denuncia de onde venho. Mas fico feliz, pois amo São Paulo.
Nunca vi, nunca fui lá, nunca pus os pés em seu chão, nunca ouvi suas vozes, nunca vi suas cores. Pelo menos não ao vivo. Graças aos meus adorados amigos de São Paulo, aprendo seus erres enrolados e seus erres fortes; impossíveis de se escrever, lindos de se ouvir. Sempre quis São Paulo. Sempre. Agora, tão perto de realizar esse sonho, não estou ansiosa, nem feliz, nem nervosa. Na verdade, estou meio nada, meio blasé. Não ligo, não sei por quê.
As pessoas falam de São Paulo: que é cinza; que é feia; que a poluição nos intoxica; que a violência nas ruas assusta. Falam de prostituição, falam sobre cuidar de si mesmo, sobre andar atento; é muito cada um por si, e o todos por todos, será que alguém lembra? Acho que não, só eu sou tola o suficiente para acreditar em algo assim.
Vou então sem crer em nada. Pode me surpreender, pode me decepcionar. Não ligo mais, São Paulo. Tu bem sabes, pela nossa conexão, o quanto anseio viver em ti. Talvez eu nunca consiga, mas eu meu coração eu irei. Mas só se não me decepcionar, ouviste bem? Hei de viver em ti, São Paulo. Hei de crescer em ti, casar-me-ei em um dos seus pores-do-sol. Encontrarei amor em ti, São Paulo. E agora adeus, que o tempo é curto e a mala vazia ao lado das roupas dobradas na cama me espera.