(Meu primeiro conto. O título é esse porque meu amigo Keilon Reckers pediu, rs. Não sei quem é a mulher do conto. A alma dela contou para a minha que descia a ladeira do morro de salto, sempre; e o resto da história foi saindo pela ponta da caneta.)
Foi descendo devagar a ladeira do morro. De salto,
claro, que ela não era mulher de perder a classe; por mais difíceis que fossem
os tempos. Difícil trabalhar de doméstica em casa de madame, logo ela, tão
acostumada a nada fazer. Não estava nem um pouco empolgada para sair e ir lavar
e passar em outra casa: era só seu terceiro dia, estava chovendo
torrencialmente, e aquele guarda-chuva não estava adiantando de nada.
Mas agora era diferente, seu marido se fora e as
bocas dos filhos pequenos não podiam ser ignoradas. “Qualquer coisa, menos
deixar meus filhos passarem fome”, pensou a orgulhosa mãe de salto na ladeira.
Cabeças viravam quando ela passava. Mesmo depois de três filhos, ainda era
bonita. Apenas pequenas rugas ao redor dos olhos e um ou dois fios de cabelo
branco denunciavam sua idade, que ela não contava a ninguém. Fora isso; as mãos
bem cuidadas, as pernas de adolescente e a barriga quase inexistente a faziam
parecer bem mais nova do que era.
E acabou de descer a ladeira, e subiu os degraus do
ônibus.
Não ligava que a olhassem, mas lembrou-se
inevitavelmente de como o seu marido a fazia sentir protegida. Devia ter
suspeitado quando ele começou a trazer mais que o dobro do que trazia antes
para casa... Mas foi egoísta, só pensou no que aquele dinheiro traria para si e
para seus amados marido e filhos; os homens da sua vida. Mas no fundo ela
sabia. No morro é sempre assim...
Por isso, não foi realmente uma surpresa (uma
péssima surpresa, diga-se de passagem) quando apareceu um moleque suado e ofegante
na sua porta, na hora do almoço, dizendo afobado “vem dona, que seu Welton tá
morrendo!”; e ela foi; meio fora do próprio corpo. Correu, mas não era ela.
Ajoelhou-se ao lado do sangrento buraco no meio do peito que resumia seu
marido, que ainda teve tempo de sorrir, “desculpa” e partir em seus braços. Mas
não foi ela quem chorou, foi aquele marasmo que tomou conta dela. Desde aquele
dia, parecia que era outra que movia seu corpo e sua vontade, e a mulher que
ela era antes estava escondida atrás de um véu, sem vontade de sair.
Deu por si saindo do ônibus, na frente da casa da
patroa. O celular tocou na hora que ela estendeu a mão para a campainha. Ela
atendeu, mas aquela chuva maldita piorava tanto o sinal... “Fala, Nathasha, o
que foi?” Barulho, muito barulho, e a voz chorosa e desesperada da sua melhor
amiga misturada com o chiado do sinal ruim. “Ah meu Deus, ah meu...’
‘...rível, amiga, a chuva...’ ‘...aiu o barraco...’ ‘...teus menino, ah meu
Deus do céu!” mais choro, gritos longínquos, e o barulho da chuva e da torrente
lamacenta, será que era só sua imaginação? Chuva maldita...
Quando seu cérebro finalmente conseguiu registrar o
que a amiga havia dito, ela decidiu que não podia mais ficar ali. Atravessou a
rua devagar sobre seus saltos, sem olhar para os lados, desejando apenas que o
ônibus que iria leva-la para junto dos homens da sua vida não demorasse muito.
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