sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Vontades.

O título fiel a realidade é esse: "Fiquei vagando sonolentamente por mim depois de jantar, na biblioteca, e o que pari foi isso." Vontades só está aqui em cima porque é pequeno.

Vontade de dormir, quero morrer de cansaço. Não posso mais, não posso viver assim nesse sono. Vontade de falar sempre a verdade, de fugir com uma boa câmera e viver de fotografar o céu... Ele estava lindo hoje. Sou egoísta, sou mãe do céu, do azul, das nuvens estranhas e das fofas, das brancas e das cinzas.

Me deixo flutuar no meu éter cerebral e te vejo passar. Quero te abraçar apertado e dizer que te amo, quero que me diga o mesmo. Vontade de você.

Vontade de comer banana frita com queijo, churros de chocolate, peixe do Oasis, baião-de-dois de andu.

Vontade de tempestade, do pôr-do-sol cor-de-rosa; quero o vento da manhã, a luz clarinha e o coral de pássaros do sítio. Vontade do meu cachorro e da sua bolinha de borracha.

Vontade do seu olhar, do seu sorriso; não faz assim, não lê minha alma, tenho vergonha.

Vontade de tentar fazer Haikai.

Não faz assim, saudade,
Que eu quero minha casa
E minha cidade.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Medo.

O medo me consome e me alimenta, como um ciclo vicioso do qual eu não consigo escapar. Já estou entranhada demais nisso para sair.

Queria ser forte. Queria vencer a merda da evolução. Quem diabos disse que o medo salvou o homem e o fez viver até hoje? Alguém pode por favor mandar essa pessoa ir pra puta que pariu?

O medo não me salva, o medo me apavora. Ele me faz querer morrer, querer parar, não quero mais saber, só quero voltar para o lugar onde eu estava antes de estar aqui, e não ver nada disso nunca mais. Não mereço isso, nunca pretendi vir aqui para sentir dor, angústia e medo. Queria pedir a alguém para me salvar, mas sei que estou só.

Eu, tenha piedade de mim e nos salve.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Chão de Giz.

De onde estava, vi passar uma menina. 

Fone nos ouvidos, all star nos pés, cabisbaixa, olhar angustiado, ouvia Chão de Giz e pensava nela. Porque tinha que amá-la, se perguntava.  Eu sabia o que ela era, o que sentia, por quem sentia.  Amor não correspondido, essa dor estava estampada em sua face.  

Senti empatia por aquela garota. Sabia muito bem o que era amar e não ser amada de volta. E enquanto Zé Ramalho cantava Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar, vi seus olhos encherem-se de lágrimas. Quis correr e abraçá-la. Não chore, eu diria, um dia alguém vai te amar. 

Por um segundo estranho, quis ser mãe dela. Nada melhor que colo de mãe. Quase chorei também, sentia falta do abraço alvo e macio de minha mãe, do abraço queimado de sol e forte de meu pai, do abraço pequeno e acolhedor de minha irmã.

Ela parou e sentou-se ao lado de um amigo, num banco. Guardou os fones, eles começaram a conversar, brincar, rir. Vi a angústia sumir pouco a pouco dos seus olhos. E me perguntei se o amor e a dor que eu vira eram reais. Provavelmente sim, não se é triste toda hora, o sorriso também tem espaço na vida. 

Um pássaro de peito amarelo passou voando e pousou numa das jovens árvores magrelas que haviam ao redor. Observei-o e abstraí. 

sábado, 1 de outubro de 2011

Corujas.

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que peguei numa coruja.

Num galho de uma grande árvore que fica ao lado da casa do sítio, uma coruja se confundia com o malhado da casca do galho em que estava empoleirada. Dura, parada, olhando fixo para algum lugar insondável. Minha mãe a viu primeiro. 

Foi chegando devagar, tirou-a do galho. Sua pequena cabeça pendeu para trás e seus olhos ficaram entreabertos. Estava morta. Pedi para segurá-la e não deixei ninguém chegar perto. 

Ela era tão pequena, tão frágil. Podia sentir suas minúsculas costelas por baixo da penugem macia. A cabeça continuava mole, o corpo continuava quente. Comecei a mexer nas penas, abrir e fechar as asas. Sempre gostei de pássaros, principalmente corujas. Não lembro se seus olhos eram cor de âmbar, confesso que não prestei atenção. 

Aquela morte me tocou. Improvisei uma mortalha com um pano velho, arranjei uma pá pequena de jardinagem e procurei no terreno do sítio um lugar em que não houvessem formigas. Cavei o suficiente e a coloquei com cuidado no buraco. Pus a terra de volta e descansei uma pedra onde estaria sua cabeça. Orei. Não sabia para quem naquela época, mas orei para que ela voasse tranquila até onde tinha de chegar. 

Meu pai chamou para lanchar, e algumas horas depois já tinha quase esquecido aquilo. Mas a morte da coruja ficou gravada em mim. E o meu amor por corujas intensificou-se depois disso.