sábado, 23 de junho de 2012

Espremidos Não Mais.

(Um conto meio bobo que achei enquanto fazia "uma limpa" no pc. Acho que escrevi para um trabalho ano passado, não lembro... Enfim, boa leitura! :)

Meu nome é Luiz e tenho 51 anos. Mas há 25 anos atrás, quando a conheci, era muito diferente do que sou hoje... Foi numa das escaladas que costumava fazer que conheci Clarisse. Ela tinha olhos e cabelos escuros, e os dois tinham reflexos dourados quando batia-lhes o sol. Achei-a linda, mas não conversei com ela. Trocamos olhares, mas nem um 'oi'. Parecíamos dois adolescentes tímidos. Quando a escalada acabou e o grupo se separou, me arrependi por não ter puxado assunto. Só sabia que seu nome era Clarisse porque estava escrito num chaveiro de sua mochila.

Depois de um ano, eu quase não lembrava da mulher que me encantara. Comecei a organizar com meus amigos um grupo de mergulho, e no dia marcado chegamos à praia junto com o sol. Enquanto eles tiravam os equipamentos do carro, fui para mais perto de onde as ondas quebravam e, apreciando o espetáculo que era o nascer do sol, agradeci por estar vivo. 

Por algum motivo, olhei para o lado. A certa distância havia uma mulher se alongando sob o sol frio da manhã, com roupa de mergulho. Em certo momento, ela virou o rosto para o lugar em que estava. Meu coração perdeu um compasso: Era ela, Clarisse! Sorriu e acenou, havia me reconhecido. 

Quando comecei a ir até lá, Érico me chamou, já estava tudo pronto e daí a algum tempo poderíamos mergulhar. Fui ajudá-los a por o que restava em terra no barco. Eu estava embarcando o último cilindro de oxigênio quando ouvi uma voz limpa e clara perguntar se podia ir conosco. Virei-me e Clarisse estava lá. Sorriu de novo para mim. Érico, Mateus e eu concordamos que ela fosse conosco. 

Foi uma viagem tranquila até o lugar em que mergulharíamos. Mateus ficou no barco, como previsto, enquanto nós mergulhávamos. Já submerso, senti minha garganta arder um pouco ao respirar o ar do cilindro, mas nada muito fora do normal, e a sensação passou logo. Mas enquanto descia mais, acompanhando os outros, comecei a ficar tonto. Minha visão escureceu e senti meu corpo afrouxar e girar em alguma direção que eu já não conseguia ver. Senti minha cabeça bater em algo muito duro, e perdi completamente a consciência. 

Lembro de acordar já no hospital, e parece que foi ontem que Érico me contou o que acontecera. O gás do meu cilindro praticamente não continha oxigênio, o que me fez desmaiar. Ele disse que foi muito surreal me ver girar, afundar e bater a cabeça naquele recife enorme. Eles foram rapidamente até mim, me levaram até a superfície e correram até o hospital. Eu havia perdido muito sangue devido à pancada. Precisava de uma transfusão, mas nenhum de meus amigos era compatível. Clarisse ofereceu-se como doadora, e surpreendentemente ela era compatível. Graças à ela eu sobrevivera àquilo. 

Assim que perguntei a Érico onde ela estava, bateram à porta. Era ela. Seus olhos castanho-dourados estavam sombrios de preocupação, mas brilharam com força quando viram que eu estava acordado. Meu amigo saiu pela porta que ela deixara entreaberta. 

Ela aproximou-se da cama. Deu-me um beijo na testa, perguntou se eu estava bem. Respondi-lhe que sim, e aproveitei para perguntar se lembrava de mim, da escalada. Sua resposta foi positiva, rimos e começamos uma conversa a partir da natureza, que já havíamos percebido ser um interesse em comum. Conversamos até escurecer, até que o sono começou a nos vencer... Dormimos lado a lado, espremidos na minha apertada cama de hospital. 

E até hoje, mais de vinte anos depois, dormimos (ainda que não mais espremidos) na nossa cama.

domingo, 17 de junho de 2012

Uma Pipa Sem Cerol Pra Viagem, Por Favor.


Subi na rampa pra ver o pôr-do-sol. Fugia. O estresse tomara conta de mim, mas agora eu sabia que estava segura. Ouvia ao longe os gritos dos moleques que jogavam futebol. 

Lembro que um dia você me prometeu que subiria comigo a rampa pra vermos o pôr-do-sol. Até hoje espero. Ou não. Enfim, só quero que saiba que não te espero mais. E que estou feliz assim.

O rosa agora quase doía nos olhos, tudo ficava cada vez mais carmesim. Uma única nuvem branca restava no céu. O dourado de antes era como ouro do mais puro, transformado em gás, ou espuma, ou seja lá do que são feitas as nuvens. Não importa, são elas que dão graça para o céu.

Mas foi num pedaço de céu sem nuvens que eu as vi. Primeiro só uma, ao longe. Achei que fosse um pássaro, só depois percebi que ela dançava de um lado para o outro no mesmo ponto. A pipa. Tão pequena, tão longe-pipa. Eu a queria. Nunca empinei pipa, mas assim é a vida.

Voltei a olhar para o sol. Sumia, e foi aqui que nosso conto começou: eu olhava agora para um céu cor-de-rosa, como a cor que a carne tem por dentro quando está mal passada. Acho que estou com fome. Voltando ao assunto, vi então outra pipa, perto-pipa, e achei que meus olhos brincavam comigo, mas ela tinha um formato inusitado... formato de coração.

Engraçado ela aparecer pra mim agora, porque é exatamente assim que eu estou: pipa. Ela parecia se comunicar com a outra pipa, tão piposas... Fiquei pensando... Será que por meio delas um casal se comunicava? Crianças brincando, conversando sobre seu puro amor por meio de pipas.

Era assim que devia ser: todo mundo pipa, pipando juntos pelo céu rajado de laranja do pôr-do-sol até que a rabiola se gastasse, o fio que a empina se gastasse, e não se pudesse mais voar. Tudo isso sem cerol, claro.