Meu nome é Luiz e tenho 51 anos. Mas há 25 anos
atrás, quando a conheci, era muito diferente do que sou hoje... Foi numa das escaladas que costumava
fazer que conheci Clarisse. Ela tinha olhos e cabelos escuros, e os dois tinham
reflexos dourados quando batia-lhes o sol. Achei-a linda, mas não conversei com
ela. Trocamos olhares, mas nem um 'oi'. Parecíamos dois adolescentes
tímidos. Quando a escalada acabou e o grupo se separou, me arrependi por
não ter puxado assunto. Só sabia que seu nome era Clarisse porque estava
escrito num chaveiro de sua mochila.
Depois de um ano,
eu quase não lembrava da mulher que me encantara. Comecei a organizar com meus
amigos um grupo de mergulho, e no dia marcado chegamos à praia junto com o sol.
Enquanto eles tiravam os equipamentos do carro, fui para mais perto de onde as
ondas quebravam e, apreciando o espetáculo que era o nascer do sol, agradeci
por estar vivo.
Por algum motivo,
olhei para o lado. A certa distância havia uma mulher se alongando sob o sol
frio da manhã, com roupa de mergulho. Em certo momento, ela virou o rosto para
o lugar em que estava. Meu coração perdeu um compasso: Era ela, Clarisse!
Sorriu e acenou, havia me reconhecido.
Quando comecei a
ir até lá, Érico me chamou, já estava tudo pronto e daí a algum tempo
poderíamos mergulhar. Fui ajudá-los a por o que restava em terra no barco. Eu
estava embarcando o último cilindro de oxigênio quando ouvi uma voz limpa e
clara perguntar se podia ir conosco. Virei-me e Clarisse estava lá. Sorriu de
novo para mim. Érico, Mateus e eu concordamos que ela fosse conosco.
Foi uma viagem
tranquila até o lugar em que mergulharíamos. Mateus ficou no barco, como
previsto, enquanto nós mergulhávamos. Já submerso, senti minha garganta arder
um pouco ao respirar o ar do cilindro, mas nada muito fora do normal, e a
sensação passou logo. Mas enquanto descia mais, acompanhando os outros, comecei
a ficar tonto. Minha visão escureceu e senti meu corpo afrouxar e girar em
alguma direção que eu já não conseguia ver. Senti minha cabeça bater em algo
muito duro, e perdi completamente a consciência.
Lembro de acordar
já no hospital, e parece que foi ontem que Érico me contou o que acontecera. O
gás do meu cilindro praticamente não continha oxigênio, o que me fez desmaiar.
Ele disse que foi muito surreal me ver girar, afundar e bater a cabeça naquele
recife enorme. Eles foram rapidamente até mim, me levaram até a superfície e
correram até o hospital. Eu havia perdido muito sangue devido à pancada.
Precisava de uma transfusão, mas nenhum de meus amigos era compatível. Clarisse
ofereceu-se como doadora, e surpreendentemente ela era compatível. Graças à
ela eu sobrevivera àquilo.
Assim que
perguntei a Érico onde ela estava, bateram à porta. Era ela. Seus olhos
castanho-dourados estavam sombrios de preocupação, mas brilharam com força
quando viram que eu estava acordado. Meu amigo saiu pela porta que ela deixara
entreaberta.
Ela aproximou-se
da cama. Deu-me um beijo na testa, perguntou se eu estava bem. Respondi-lhe que
sim, e aproveitei para perguntar se lembrava de mim, da escalada. Sua resposta
foi positiva, rimos e começamos uma conversa a partir da natureza, que já havíamos
percebido ser um interesse em comum. Conversamos até escurecer, até que o sono começou a nos vencer... Dormimos lado
a lado, espremidos na minha apertada cama de hospital.
E até hoje, mais de vinte anos depois, dormimos (ainda que não mais espremidos) na nossa cama.
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