Numa rua de nome engraçado, hospedada em um hotel com nome de anjo. Três
dias, pelos quais esperei a vida toda, mesmo sem saber. São Paulo... Quanta
coisa gravada num nome tão pequeno, tão simples. A expectativa é grande, mas o
medo de me decepcionar também é. Por que será que essa cidade me parece tão
fascinante? Será que é a velha estória do nordestino que vai para São Paulo sofrer?...
Que preconceito o meu. Não devia pensar assim, sendo uma representante
orgulhosa da minha região.
O fato é que São Paulo pra mim é uma cidade mágica. Sua luz, sua vida
24 horas por dia, seu amor. Algo na alma de São Paulo se conecta com a minha
alma e me faz querer essa cidade. As cores, as vozes, os sons. A música, a história,
os gostos, tudo. Sinto-me São Paulo. Sempre me dizem que tenho cara de São Paulo.
O sotaque, porém, mistura de cearense com todo o resto denuncia de onde venho. Mas
fico feliz, pois amo São Paulo.
Nunca vi, nunca fui lá, nunca pus os pés em seu chão, nunca ouvi suas
vozes, nunca vi suas cores. Pelo menos não ao vivo. Graças aos meus adorados
amigos de São Paulo, aprendo seus erres enrolados e seus erres fortes;
impossíveis de se escrever, lindos de se ouvir. Sempre quis São Paulo. Sempre. Agora,
tão perto de realizar esse sonho, não estou ansiosa, nem feliz, nem nervosa. Na
verdade, estou meio nada, meio blasé. Não ligo, não sei por quê.
As pessoas falam de São Paulo: que é cinza; que é feia; que a poluição
nos intoxica; que a violência nas ruas assusta. Falam de prostituição, falam
sobre cuidar de si mesmo, sobre andar atento; é muito cada um por si, e o todos
por todos, será que alguém lembra? Acho que não, só eu sou tola o suficiente
para acreditar em algo assim.
Vou então sem crer em nada. Pode me surpreender, pode me decepcionar. Não
ligo mais, São Paulo. Tu bem sabes, pela nossa conexão, o quanto anseio viver
em ti. Talvez eu nunca consiga, mas eu meu coração eu irei. Mas só se não me
decepcionar, ouviste bem? Hei de viver em ti, São Paulo. Hei de crescer em ti,
casar-me-ei em um dos seus pores-do-sol. Encontrarei amor em ti, São Paulo. E agora
adeus, que o tempo é curto e a mala vazia ao lado das roupas dobradas na cama
me espera.
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