terça-feira, 26 de março de 2013

Ladeira.


(Meu primeiro conto. O título é esse porque meu amigo Keilon Reckers pediu, rs. Não sei quem é a mulher do conto. A alma dela contou para a minha que descia a ladeira do morro de salto, sempre; e o resto da história foi saindo pela ponta da caneta.)

Foi descendo devagar a ladeira do morro. De salto, claro, que ela não era mulher de perder a classe; por mais difíceis que fossem os tempos. Difícil trabalhar de doméstica em casa de madame, logo ela, tão acostumada a nada fazer. Não estava nem um pouco empolgada para sair e ir lavar e passar em outra casa: era só seu terceiro dia, estava chovendo torrencialmente, e aquele guarda-chuva não estava adiantando de nada.

Mas agora era diferente, seu marido se fora e as bocas dos filhos pequenos não podiam ser ignoradas. “Qualquer coisa, menos deixar meus filhos passarem fome”, pensou a orgulhosa mãe de salto na ladeira. Cabeças viravam quando ela passava. Mesmo depois de três filhos, ainda era bonita. Apenas pequenas rugas ao redor dos olhos e um ou dois fios de cabelo branco denunciavam sua idade, que ela não contava a ninguém. Fora isso; as mãos bem cuidadas, as pernas de adolescente e a barriga quase inexistente a faziam parecer bem mais nova do que era.

E acabou de descer a ladeira, e subiu os degraus do ônibus.

Não ligava que a olhassem, mas lembrou-se inevitavelmente de como o seu marido a fazia sentir protegida. Devia ter suspeitado quando ele começou a trazer mais que o dobro do que trazia antes para casa... Mas foi egoísta, só pensou no que aquele dinheiro traria para si e para seus amados marido e filhos; os homens da sua vida. Mas no fundo ela sabia. No morro é sempre assim...

Por isso, não foi realmente uma surpresa (uma péssima surpresa, diga-se de passagem) quando apareceu um moleque suado e ofegante na sua porta, na hora do almoço, dizendo afobado “vem dona, que seu Welton tá morrendo!”; e ela foi; meio fora do próprio corpo. Correu, mas não era ela. Ajoelhou-se ao lado do sangrento buraco no meio do peito que resumia seu marido, que ainda teve tempo de sorrir, “desculpa” e partir em seus braços. Mas não foi ela quem chorou, foi aquele marasmo que tomou conta dela. Desde aquele dia, parecia que era outra que movia seu corpo e sua vontade, e a mulher que ela era antes estava escondida atrás de um véu, sem vontade de sair.

Deu por si saindo do ônibus, na frente da casa da patroa. O celular tocou na hora que ela estendeu a mão para a campainha. Ela atendeu, mas aquela chuva maldita piorava tanto o sinal... “Fala, Nathasha, o que foi?” Barulho, muito barulho, e a voz chorosa e desesperada da sua melhor amiga misturada com o chiado do sinal ruim. “Ah meu Deus, ah meu...’ ‘...rível, amiga, a chuva...’ ‘...aiu o barraco...’ ‘...teus menino, ah meu Deus do céu!” mais choro, gritos longínquos, e o barulho da chuva e da torrente lamacenta, será que era só sua imaginação? Chuva maldita...

Quando seu cérebro finalmente conseguiu registrar o que a amiga havia dito, ela decidiu que não podia mais ficar ali. Atravessou a rua devagar sobre seus saltos, sem olhar para os lados, desejando apenas que o ônibus que iria leva-la para junto dos homens da sua vida não demorasse muito.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Não quero colocar um título nesse post. Escrevo nesse blog porque amo escrever, por mais que ninguém (ou quase ninguém) leia o que sai dessa minha cabeça confusa. Então esse pedido de desculpas é para mim, antes de ser para qualquer possível leitor/leitora que eu tenha.

Foi uma negligência comigo mesma deixar essas outras vidas presas tanto tempo dentro de mim. Pois cada livro que leio, cada personagem que passa pelos meus olhos vive em mim mesmo depois que eu já devolvi o livro à prateleira... Me sinto velha às vezes, com tantas vidas em mim. E ainda por cima há aqueles personagens que são meus, mas que contam suas histórias em uma voz muito baixa para que eu consiga trazê-los para ver o sol através das minhas palavras...

Este é um ano muito importante: o ano que eu vou começar a construir minha vida, fazendo o meu amado curso de jornalismo... E é também meu último ano numa escola maravilhosa que aprendi a chamar de lar, graças principalmente aos que conheci aqui. Mas mesmo com toda a loucura de ser terceiranista e vestibulanda e metamorfose ambulante (que clichê dizer isso... mas fazer o que se é verdade) eu quero escrever mais esse ano.

Escrever o que eu nunca consegui escrever. Jogar no mundo esses pedaços de história; esses personagens fugidios que batem na minha porta com seus pseudo-contos, e que sussurram suas vidas pelas minhas janelas enquanto eu presto atenção sem mostrar que o faço... Porque quando eles percebem que estou levantando para abrir a porta, fogem.

O desafio desse ano é esse: ensiná-los que, se eu por acaso abrir a porta, não vou prendê-los para sempre... Só quero saber de suas vidas, e depois deixá-los livres para que voltem quando bem desejarem, com novas histórias.