domingo, 23 de setembro de 2012

Antes de São Paulo.


Numa rua de nome engraçado, hospedada em um hotel com nome de anjo. Três dias, pelos quais esperei a vida toda, mesmo sem saber. São Paulo... Quanta coisa gravada num nome tão pequeno, tão simples. A expectativa é grande, mas o medo de me decepcionar também é. Por que será que essa cidade me parece tão fascinante? Será que é a velha estória do nordestino que vai para São Paulo sofrer?... Que preconceito o meu. Não devia pensar assim, sendo uma representante orgulhosa da minha região.
O fato é que São Paulo pra mim é uma cidade mágica. Sua luz, sua vida 24 horas por dia, seu amor. Algo na alma de São Paulo se conecta com a minha alma e me faz querer essa cidade. As cores, as vozes, os sons. A música, a história, os gostos, tudo. Sinto-me São Paulo. Sempre me dizem que tenho cara de São Paulo. O sotaque, porém, mistura de cearense com todo o resto denuncia de onde venho. Mas fico feliz, pois amo São Paulo.
Nunca vi, nunca fui lá, nunca pus os pés em seu chão, nunca ouvi suas vozes, nunca vi suas cores. Pelo menos não ao vivo. Graças aos meus adorados amigos de São Paulo, aprendo seus erres enrolados e seus erres fortes; impossíveis de se escrever, lindos de se ouvir. Sempre quis São Paulo. Sempre. Agora, tão perto de realizar esse sonho, não estou ansiosa, nem feliz, nem nervosa. Na verdade, estou meio nada, meio blasé. Não ligo, não sei por quê.
As pessoas falam de São Paulo: que é cinza; que é feia; que a poluição nos intoxica; que a violência nas ruas assusta. Falam de prostituição, falam sobre cuidar de si mesmo, sobre andar atento; é muito cada um por si, e o todos por todos, será que alguém lembra? Acho que não, só eu sou tola o suficiente para acreditar em algo assim.
Vou então sem crer em nada. Pode me surpreender, pode me decepcionar. Não ligo mais, São Paulo. Tu bem sabes, pela nossa conexão, o quanto anseio viver em ti. Talvez eu nunca consiga, mas eu meu coração eu irei. Mas só se não me decepcionar, ouviste bem? Hei de viver em ti, São Paulo. Hei de crescer em ti, casar-me-ei em um dos seus pores-do-sol. Encontrarei amor em ti, São Paulo. E agora adeus, que o tempo é curto e a mala vazia ao lado das roupas dobradas na cama me espera.

sábado, 23 de junho de 2012

Espremidos Não Mais.

(Um conto meio bobo que achei enquanto fazia "uma limpa" no pc. Acho que escrevi para um trabalho ano passado, não lembro... Enfim, boa leitura! :)

Meu nome é Luiz e tenho 51 anos. Mas há 25 anos atrás, quando a conheci, era muito diferente do que sou hoje... Foi numa das escaladas que costumava fazer que conheci Clarisse. Ela tinha olhos e cabelos escuros, e os dois tinham reflexos dourados quando batia-lhes o sol. Achei-a linda, mas não conversei com ela. Trocamos olhares, mas nem um 'oi'. Parecíamos dois adolescentes tímidos. Quando a escalada acabou e o grupo se separou, me arrependi por não ter puxado assunto. Só sabia que seu nome era Clarisse porque estava escrito num chaveiro de sua mochila.

Depois de um ano, eu quase não lembrava da mulher que me encantara. Comecei a organizar com meus amigos um grupo de mergulho, e no dia marcado chegamos à praia junto com o sol. Enquanto eles tiravam os equipamentos do carro, fui para mais perto de onde as ondas quebravam e, apreciando o espetáculo que era o nascer do sol, agradeci por estar vivo. 

Por algum motivo, olhei para o lado. A certa distância havia uma mulher se alongando sob o sol frio da manhã, com roupa de mergulho. Em certo momento, ela virou o rosto para o lugar em que estava. Meu coração perdeu um compasso: Era ela, Clarisse! Sorriu e acenou, havia me reconhecido. 

Quando comecei a ir até lá, Érico me chamou, já estava tudo pronto e daí a algum tempo poderíamos mergulhar. Fui ajudá-los a por o que restava em terra no barco. Eu estava embarcando o último cilindro de oxigênio quando ouvi uma voz limpa e clara perguntar se podia ir conosco. Virei-me e Clarisse estava lá. Sorriu de novo para mim. Érico, Mateus e eu concordamos que ela fosse conosco. 

Foi uma viagem tranquila até o lugar em que mergulharíamos. Mateus ficou no barco, como previsto, enquanto nós mergulhávamos. Já submerso, senti minha garganta arder um pouco ao respirar o ar do cilindro, mas nada muito fora do normal, e a sensação passou logo. Mas enquanto descia mais, acompanhando os outros, comecei a ficar tonto. Minha visão escureceu e senti meu corpo afrouxar e girar em alguma direção que eu já não conseguia ver. Senti minha cabeça bater em algo muito duro, e perdi completamente a consciência. 

Lembro de acordar já no hospital, e parece que foi ontem que Érico me contou o que acontecera. O gás do meu cilindro praticamente não continha oxigênio, o que me fez desmaiar. Ele disse que foi muito surreal me ver girar, afundar e bater a cabeça naquele recife enorme. Eles foram rapidamente até mim, me levaram até a superfície e correram até o hospital. Eu havia perdido muito sangue devido à pancada. Precisava de uma transfusão, mas nenhum de meus amigos era compatível. Clarisse ofereceu-se como doadora, e surpreendentemente ela era compatível. Graças à ela eu sobrevivera àquilo. 

Assim que perguntei a Érico onde ela estava, bateram à porta. Era ela. Seus olhos castanho-dourados estavam sombrios de preocupação, mas brilharam com força quando viram que eu estava acordado. Meu amigo saiu pela porta que ela deixara entreaberta. 

Ela aproximou-se da cama. Deu-me um beijo na testa, perguntou se eu estava bem. Respondi-lhe que sim, e aproveitei para perguntar se lembrava de mim, da escalada. Sua resposta foi positiva, rimos e começamos uma conversa a partir da natureza, que já havíamos percebido ser um interesse em comum. Conversamos até escurecer, até que o sono começou a nos vencer... Dormimos lado a lado, espremidos na minha apertada cama de hospital. 

E até hoje, mais de vinte anos depois, dormimos (ainda que não mais espremidos) na nossa cama.

domingo, 17 de junho de 2012

Uma Pipa Sem Cerol Pra Viagem, Por Favor.


Subi na rampa pra ver o pôr-do-sol. Fugia. O estresse tomara conta de mim, mas agora eu sabia que estava segura. Ouvia ao longe os gritos dos moleques que jogavam futebol. 

Lembro que um dia você me prometeu que subiria comigo a rampa pra vermos o pôr-do-sol. Até hoje espero. Ou não. Enfim, só quero que saiba que não te espero mais. E que estou feliz assim.

O rosa agora quase doía nos olhos, tudo ficava cada vez mais carmesim. Uma única nuvem branca restava no céu. O dourado de antes era como ouro do mais puro, transformado em gás, ou espuma, ou seja lá do que são feitas as nuvens. Não importa, são elas que dão graça para o céu.

Mas foi num pedaço de céu sem nuvens que eu as vi. Primeiro só uma, ao longe. Achei que fosse um pássaro, só depois percebi que ela dançava de um lado para o outro no mesmo ponto. A pipa. Tão pequena, tão longe-pipa. Eu a queria. Nunca empinei pipa, mas assim é a vida.

Voltei a olhar para o sol. Sumia, e foi aqui que nosso conto começou: eu olhava agora para um céu cor-de-rosa, como a cor que a carne tem por dentro quando está mal passada. Acho que estou com fome. Voltando ao assunto, vi então outra pipa, perto-pipa, e achei que meus olhos brincavam comigo, mas ela tinha um formato inusitado... formato de coração.

Engraçado ela aparecer pra mim agora, porque é exatamente assim que eu estou: pipa. Ela parecia se comunicar com a outra pipa, tão piposas... Fiquei pensando... Será que por meio delas um casal se comunicava? Crianças brincando, conversando sobre seu puro amor por meio de pipas.

Era assim que devia ser: todo mundo pipa, pipando juntos pelo céu rajado de laranja do pôr-do-sol até que a rabiola se gastasse, o fio que a empina se gastasse, e não se pudesse mais voar. Tudo isso sem cerol, claro.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Lume Soberano.

Já fazia algum tempo que eu esperava sua chegada. Ia para o aeroporto, aguardando o seu desembarque, mas este nunca acontecia. Eu ficava na expectativa, esperando você chegar para irmos pra casa. Queria te mostrar a última que compus.

Foi pensando em você que a escrevi. Pensando no amor que compartilhamos, pensando na chuva que caiu no dia em que você me disse adeus, sem pronunciar uma única palavra; em todas as luas que nossos olhos viram juntos...

Teus olhos. Foi por eles que me apaixonei primeiro. Depois pelo teu sorriso, depois pela tua voz. Quando dei por mim, já estava te amando por inteiro. Ainda não esqueci o que senti por você, pequena. Foi e é grande demais o meu sentimento para que eu consiga esquecê-lo.

Agora que a hora de você voltar pra casa está chegando, minha vontade de te ver só aumenta. Talvez seja difícil para você no começo, mas prometo que vai ficar mais fácil depois. A música que compus pra você, pequena, escrevi-a pensando nos teus olhos de lume soberano. Para quem fica eles nunca mais brilharão. Mas para nós daqui, que te esperamos tanto tempo, eles vão luzir para sempre.


(texto baseado na música Luz dos Olhos - Cássia Eller; escrito para o Clube de Leitores).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Olhar.

Olho
Porta da Alma
Aberta, Espelho
Me olha no olho e me lê
Por que
Por favor para
Não posso, Não quero, Não deixo
Vai embora
Não te quero mais
Você já foi então por que insiste em voltar
Só na minha cabeça
Cabeça maldita
E esse olho que me entrega
Porta aberta da alma.

De mim, pra você.

(Meu coração controlou meus dedos durante um tempo, e foi isso que saiu.)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Uma Longa Linha de Pensamento.

Me sinto um pouco longe de quem me tornei no decorrer do ano passado. Essa outra eu entendia melhor que não há nada de errado em amar muitas pessoas, esse amor lindo que é a amizade. Mas aqui eu vejo o quão efêmeros podem ser os laços que nos unem as pessoas, e sinto medo de dizer te amo como dizia antes, o medo que sinto da separação é muito grande. Há algum tempo me separei de pessoas que gostava muito, e também de pessoas que amava. Eles estão por aí, espalhados pelos cantos do país. Sempre lembro deles com saudade, e sempre desejo o melhor a todos.

Não consigo visualizar esse novo ano com pessoas que nunca vi, e sem aqueles que amo. Sem aquela pessoa que só entendi depois que amava, talvez, mais que todos os que foram. Sem ela saber, pois eram nossas raras e curtas conversas que faziam isso; essa pessoa me fez mudar, mas não mudar somente, e sim crescer. Acho que ainda posso dizer que a amo, mesmo que antes ela insistisse em dizer que não tinha coração e não sentia "isso". (Se bem que uns tempos pra cá isso parece ter mudado.)

O problema era: parecia que, junto com eles, ela e o amor que eu sentia / sinto, a vontade de escrever também ia se esvaindo. Porra, eu já tinha me machucado com a despedida, com o "ok, nunca mais vamos conviver" e agora isso, nada de inspiração? Porque; sim; sinto muito a quem não concorda mas pra mim só flui se fluir. Só vem se tiver de vir. Isso não existe; não dá pra sentar, dizer "vou escrever" e pá, escrever uma coisa digna de... Sei lá, pensa aí num grande escritor / escritora.

Hoje faz um mês que fiz 16 anos. Não foi proposital, a danada da inspiração deu pra vir hoje. Deve ser um sinal. Ou não. (1B, saudades.) Enfim, pra ser sincera, não queria estar aqui escrevendo (de novo) sobre o que sinto. Mas, como disse alguém que espero poder conhecer pessoalmente um dia e escreve esplendidamente: "aí prefere ficar com eles (meus sentimentos) de um modo disforme, mistura de som, cor, luz, cheiro e palavras flutuando?"

Resolvi então, sem nem perceber, parar de tentar escrever uma coisa que não quer ser escrita (pelo menos por enquanto) e deixar que, como sempre, o vento sussurre no meu ouvido e as letras do teclado façam meus dedos dançar. Já entendi que não sou eu que controlo isso, então pra quê tentar? Tá bom assim. =)