Subi na rampa pra ver o pôr-do-sol. Fugia.
O estresse tomara conta de mim, mas agora eu sabia que estava segura. Ouvia ao
longe os gritos dos moleques que jogavam futebol.
Lembro que um dia você me prometeu que
subiria comigo a rampa pra vermos o pôr-do-sol. Até hoje espero. Ou não. Enfim,
só quero que saiba que não te espero mais. E que estou feliz assim.
O rosa agora quase doía nos olhos, tudo
ficava cada vez mais carmesim. Uma única nuvem branca restava no céu. O dourado
de antes era como ouro do mais puro, transformado em gás, ou espuma, ou seja lá
do que são feitas as nuvens. Não importa, são elas que dão graça para o céu.
Mas foi num pedaço de céu sem nuvens que
eu as vi. Primeiro só uma, ao longe. Achei que fosse um pássaro, só depois percebi
que ela dançava de um lado para o outro no mesmo ponto. A pipa. Tão pequena,
tão longe-pipa. Eu a queria. Nunca empinei pipa, mas assim é a vida.
Voltei a olhar para o sol. Sumia, e foi
aqui que nosso conto começou: eu olhava agora para um céu cor-de-rosa, como a
cor que a carne tem por dentro quando está mal passada. Acho que estou com
fome. Voltando ao assunto, vi então outra pipa, perto-pipa, e achei que meus
olhos brincavam comigo, mas ela tinha um formato inusitado... formato de coração.
Engraçado ela aparecer pra mim agora, porque
é exatamente assim que eu estou: pipa. Ela parecia se comunicar com a outra
pipa, tão piposas... Fiquei pensando... Será que por meio delas um casal
se comunicava? Crianças brincando, conversando sobre seu puro amor por meio de
pipas.
Era assim que devia ser: todo mundo pipa,
pipando juntos pelo céu rajado de laranja do pôr-do-sol até que a rabiola se
gastasse, o fio que a empina se gastasse, e não se pudesse mais voar. Tudo isso
sem cerol, claro.
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