Lembro-me perfeitamente da primeira vez que peguei numa coruja.
Num galho de uma grande árvore que fica ao lado da casa do sítio, uma coruja se confundia com o malhado da casca do galho em que estava empoleirada. Dura, parada, olhando fixo para algum lugar insondável. Minha mãe a viu primeiro.
Foi chegando devagar, tirou-a do galho. Sua pequena cabeça pendeu para trás e seus olhos ficaram entreabertos. Estava morta. Pedi para segurá-la e não deixei ninguém chegar perto.
Ela era tão pequena, tão frágil. Podia sentir suas minúsculas costelas por baixo da penugem macia. A cabeça continuava mole, o corpo continuava quente. Comecei a mexer nas penas, abrir e fechar as asas. Sempre gostei de pássaros, principalmente corujas. Não lembro se seus olhos eram cor de âmbar, confesso que não prestei atenção.
Aquela morte me tocou. Improvisei uma mortalha com um pano velho, arranjei uma pá pequena de jardinagem e procurei no terreno do sítio um lugar em que não houvessem formigas. Cavei o suficiente e a coloquei com cuidado no buraco. Pus a terra de volta e descansei uma pedra onde estaria sua cabeça. Orei. Não sabia para quem naquela época, mas orei para que ela voasse tranquila até onde tinha de chegar.
Meu pai chamou para lanchar, e algumas horas depois já tinha quase esquecido aquilo. Mas a morte da coruja ficou gravada em mim. E o meu amor por corujas intensificou-se depois disso.

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