Era dia. Manhã clara, azul. Solzinho branco,
brando... E o vento. O vento frio, aquele vento que agita os cabelos, mas
não faz as abas do casaco balançarem. Como se fosse uma brisa que tomou café.
Andava em linha reta sobre o caminho de cimento cinza, evitando pisar nas
folhas castanhas que haviam caído das árvores do parque. Caminhava agora ao
lado do lago, e estava tão cedo que os patos ainda nem estavam lá, tomando
banho e brincando com a água como sempre faziam. Andava com as mãos nos
bolsos do jeans, com os cabelos soltos.
Chegou ao banco, e sentou. Ele estava sem relógio,
mas como a luz do sol parecia aquecer um pouquinho mais do que antes, sabia que
estava mais perto da hora dela chegar. Tocou numa mecha de seus próprios
cabelos. Desciam até um pouco abaixo dos ombros, ondulados só-um-pouquinho,
castanho-escuros. Gostava bastante deles. Só não sabia por que ela gostava
tanto. E apesar disso, suspeitava saber quem aquela velhinha tão doce era.
Seu pai dizia que ela já havia falecido, mas ele
sabia que eles apenas não se falavam mais. Ele não tinha coragem de perguntar
para ela, mas a semelhança dos olhos dela com o seus, escuros como o céu sem
nuvens da madrugada, não deixava muitas dúvidas.
Quebrou então sua linha de pensamento, ela estava
chegando. Sentou-se ao lado dele no banco, e ficaram juntos vendo o lento
nascer do sol e o acordar do parque. Ele virou um pouco o rosto para
observá-la, e viu que seus olhos estavam fechados, como que aproveitando o
levíssimo calor que o sol dava àquela hora. Continuou olhando e, como sempre,
pareceu-lhe que ela inteira era enrugada. Sabia que ela devia ser bem velha,
mas mesmo assim podia-se ver muito bem que quando jovem fora muito bonita. Seus
cabelos eram inteiramente brancos, presos num coque pequenino na nuca. Ela
cheirava sempre a lavanda e a outra coisa boa, que ele gostava de pensar que
era cheiro de vó.
Então suas pálpebras levantaram e ela o olhou com
aqueles olhos cheios de ternura de vó.
- Por que deixou a barba crescer?... Você é muito
novo para ter barba, é só um menino... Amanhã não quero ver essa barba.
Ele assentiu e ficou feliz de ouvir a voz dela,
que destoava daquela aparência frágil e que ele quase nunca ouvia.A senhora
abriu os braços e ele deitou-se de lado no banco, a cabeça no seu colo de
lavanda. Então os frágeis dedos dela moveram-se entre seus cabelos, como ela
fazia todas as manhãs, há mais ou menos dois meses. Os dois ficaram um bom
tempo assim. Formavam um quadro meio inusitado: uma senhorinha trançando e
destrançando as mechas do longo cabelo daquele adolescente, uma cabeça mais
alto que ela e pelo menos duas vezes mais largo: ela era muito pequena. Coisa
de velhice, a gente vai diminuindo até sumir.
Até que viram que o sol já havia acabado de nascer
e começado a aquecer de verdade. A luz estava mais forte, mais amarela; os
patos já nadavam no lago e um casal, sonolento ainda, se alongava,
provavelmente para correr. Ela tirou as mãos de seus cabelos, e ele levantou do
seu colo. Ela sorriu, como sempre...
E abraçou-o pela primeira vez, seus bracinhos
finos em volta da cintura dele. Ele retribuiu o gesto, meio desajeitado, mas
sabendo que havia ali um sentimento sincero.
- Obrigada, querido. – e colocando a mão em seu
rosto – e venha sem barba amanhã, sim?
Ele sorriu:
- Venho sim, vó.
Um comentário:
Wowwww lindo. Essa personagem me parece ser bem bonita. Gostei.
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