quarta-feira, 8 de maio de 2013

Tranças de Carinho.

Era dia. Manhã clara, azul. Solzinho branco, brando... E o vento.  O vento frio, aquele vento que agita os cabelos, mas não faz as abas do casaco balançarem. Como se fosse uma brisa que tomou café. Andava em linha reta sobre o caminho de cimento cinza, evitando pisar nas folhas castanhas que haviam caído das árvores do parque. Caminhava agora ao lado do lago, e estava tão cedo que os patos ainda nem estavam lá, tomando banho e brincando com a água como sempre faziam. Andava com as mãos nos bolsos do jeans, com os cabelos soltos.

Chegou ao banco, e sentou. Ele estava sem relógio, mas como a luz do sol parecia aquecer um pouquinho mais do que antes, sabia que estava mais perto da hora dela chegar. Tocou numa mecha de seus próprios cabelos. Desciam até um pouco abaixo dos ombros, ondulados só-um-pouquinho, castanho-escuros. Gostava bastante deles. Só não sabia por que ela gostava tanto. E apesar disso, suspeitava saber quem aquela velhinha tão doce era.

Seu pai dizia que ela já havia falecido, mas ele sabia que eles apenas não se falavam mais. Ele não tinha coragem de perguntar para ela, mas a semelhança dos olhos dela com o seus, escuros como o céu sem nuvens da madrugada, não deixava muitas dúvidas.

Quebrou então sua linha de pensamento, ela estava chegando. Sentou-se ao lado dele no banco, e ficaram juntos vendo o lento nascer do sol e o acordar do parque. Ele virou um pouco o rosto para observá-la, e viu que seus olhos estavam fechados, como que aproveitando o levíssimo calor que o sol dava àquela hora. Continuou olhando e, como sempre, pareceu-lhe que ela inteira era enrugada. Sabia que ela devia ser bem velha, mas mesmo assim podia-se ver muito bem que quando jovem fora muito bonita. Seus cabelos eram inteiramente brancos, presos num coque pequenino na nuca. Ela cheirava sempre a lavanda e a outra coisa boa, que ele gostava de pensar que era cheiro de vó.

Então suas pálpebras levantaram e ela o olhou com aqueles olhos cheios de ternura de vó.

- Por que deixou a barba crescer?... Você é muito novo para ter barba, é só um menino... Amanhã não quero ver essa barba.

Ele assentiu e ficou feliz de ouvir a voz dela, que destoava daquela aparência frágil e que ele quase nunca ouvia.A senhora abriu os braços e ele deitou-se de lado no banco, a cabeça no seu colo de lavanda. Então os frágeis dedos dela moveram-se entre seus cabelos, como ela fazia todas as manhãs, há mais ou menos dois meses. Os dois ficaram um bom tempo assim. Formavam um quadro meio inusitado: uma senhorinha trançando e destrançando as mechas do longo cabelo daquele adolescente, uma cabeça mais alto que ela e pelo menos duas vezes mais largo: ela era muito pequena. Coisa de velhice, a gente vai diminuindo até sumir.

Até que viram que o sol já havia acabado de nascer e começado a aquecer de verdade. A luz estava mais forte, mais amarela; os patos já nadavam no lago e um casal, sonolento ainda, se alongava, provavelmente para correr. Ela tirou as mãos de seus cabelos, e ele levantou do seu colo. Ela sorriu, como sempre...

E abraçou-o pela primeira vez, seus bracinhos finos em volta da cintura dele. Ele retribuiu o gesto, meio desajeitado, mas sabendo que havia ali um sentimento sincero.

- Obrigada, querido. – e colocando a mão em seu rosto – e venha sem barba amanhã, sim?

Ele sorriu:

- Venho sim, vó.

Um comentário:

Anônimo disse...

Wowwww lindo. Essa personagem me parece ser bem bonita. Gostei.