Estou sentada aqui no corredor do prédio onde moro, tentando
colocar para fora o que tenho que escrever. Diabos, eu gosto de escrever, mas
que coisa difícil! Parece que, quando mais se precisa, simplesmente não vem.
Até tive algumas ideias, mas não consegui desenvolver isso numa crônica.
Agora vejo as pessoas entrando em seus quartos, comendo na
copa, conversando. Algo que soa como uma cigarra canta agora em algum lugar do
andar. Posso ouvi-la muito bem, mesmo com o fone de ouvido. Nunca vi uma
cigarra aqui na escola, mas havia tantas no sítio da minha família... Sempre
que ouvia uma, ia atrás do som, tentando encontrar aquele pequeno ser e vê-lo
sair e voar. Que eu lembre, nunca consegui esse feito.
Sinto esse texto como uma cigarra, mais uma daquelas que
nunca verei sair e voar. Mas... já que cigarras não existem aqui na escola,
talvez ele possa ser outro animal. Por exemplo, um casal de corujas que vi sair
de um buraco no chão num domingo desses. Eram lindas, pequenas e marrons.
Primeiro pareciam apreensivas, mas depois voaram alto sob a luz do pôr-do-sol.
Será que é assim também conosco, alunos? Chegamos meio
desnorteados e sonolentos, e logo somos acordados por uma espécie de simulação
da vida real, que se desenrola em frente a nós. Depois que o sono passa e o
medo se vai pouco a pouco conseguimos decidir nossos nortes, levantamos a
cabeça e alçamos voo, tão belos aos olhos de quem vê quanto aquelas corujas o
eram para mim.
Acho que, finalmente, o texto conseguiu sair do chão. Talvez
não com majestade de uma experiente coruja ao pôr-do-sol, mas, pelo menos, com
a trêmula confiança de um filhote que se lança para o vazio desconhecido pela
primeira vez.
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